Bola quicando: o exercício que ensina tudo
O exercício clássico de quem começa a animar, explicado do planejamento ao último quique, com quadros, espaçamento e deformação para cada tipo de bola.

A bola quicando é o primeiro exercício de quase todo curso de animação, e não por acaso. Uma bola não tem braços, rosto nem anatomia, mas tem peso, velocidade e material. Para fazê-la convencer, você precisa entender timing, espaçamento, arcos, aceleração e deformação, ou seja, metade dos princípios da animação num objeto que qualquer pessoa desenha. Este artigo leva o exercício do planejamento ao último quique.
#Antes de desenhar: observe
Pegue uma bola real e deixe cair. Observe três coisas:
- Cada quique é mais baixo que o anterior. A bola perde energia no contato com o chão.
- Cada quique é mais curto no tempo. Quanto mais baixo, mais rápido.
- A bola fica mais tempo no alto e passa rápido perto do chão. Ela desacelera ao subir e acelera ao cair.
Se puder, filme com o celular e passe o vídeo quadro a quadro. Você vai ver as posições da bola amontoadas perto do topo de cada arco e espalhadas perto do chão. É isso que a animação precisa reproduzir.

#O planejamento da bola quicando
Defina o projeto: 24 quadros por segundo e uns três segundos de duração, ou 72 quadros. Numa folha ou numa camada de guia, trace o caminho da bola: uma sequência de arcos que diminuem de altura e de largura, como uma série de parábolas cada vez menores, até a bola rolar e parar.
Marque nos arcos:
- Os pontos de contato com o chão.
- Os pontos mais altos de cada arco.
Esses são os quadros-chave. Com eles, você já pode distribuir o tempo de cada quique antes de desenhar os intermediários.
#Distribuindo o tempo
Uma sugestão de distribuição para uma bola de borracha:
- Primeira queda, do alto até o primeiro contato: 12 quadros.
- Primeiro quique completo, do contato ao contato: 18 quadros.
- Segundo quique: 12 quadros.
- Terceiro: 8 quadros.
- Quarto: 5 quadros.
- Rolagem e parada: o resto.
Os números diminuem porque cada arco é mais baixo. Toque só os quadros-chave nessa distribuição e ajuste até o ritmo parecer natural.
#O espaçamento da queda
Agora os intermediários. Dentro de cada arco, a bola não anda à mesma velocidade:
- Perto do topo, os desenhos ficam bem próximos: a bola quase para.
- Perto do chão, os desenhos ficam afastados: a bola está no máximo da velocidade.
Uma forma de distribuir é começar pelo topo e dividir o caminho em metades sucessivas até o chão. O artigo sobre aceleração e desaceleração explica esse gráfico de espaçamento em detalhe.
#Onde deformar
A deformação dá a sensação de material. Para uma bola de borracha:
- No topo: redonda.
- Nos quadros rápidos perto do chão: um pouco esticada na direção do movimento.
- No contato: achatada, mais larga do que alta, mantendo o volume.
- Logo depois do contato: esticada de novo, subindo.
O achatamento acontece em um ou dois quadros. Se ele durar mais, a bola parece grudar no chão. E o volume precisa se manter: se achata na vertical, alarga na horizontal. O artigo sobre comprimir e esticar traz as medidas para cada material.
#Bolas diferentes, animações diferentes
O mesmo exercício muda conforme o material, e vale repetir com três bolas:
- Bola de borracha: quiques altos, muitos, deformação visível.
- Bola de tênis: quiques médios, deformação pequena.
- Bola de boliche: quase não quica, cai pesada, um ou dois quiques baixíssimos e para, sem deformar.
- Bola de praia: cai devagar, quica alto em proporção ao peso, é levada pelo ar.
Animar as quatro lado a lado é o melhor jeito de entender como timing e deformação comunicam peso.
#A bola que anda para a frente
Depois da bola quicando no lugar, faça a bola quicando enquanto avança da esquerda para a direita. Agora os arcos se espalham pela tela, e a bola precisa perder altura e distância a cada quique. Se ela gira, a rotação acompanha o deslocamento e desacelera junto.
Esse exercício treina arcos: o caminho do centro da bola precisa ser uma sequência de parábolas limpas. Marque o centro em cada quadro numa camada separada e ligue as marcas. Onde a curva fizer um bico, o desenho está fora do lugar.
#Uma bola com personalidade
Depois de dominar a física, experimente dar intenção à bola. Uma bola que quica com alegria pode subir mais do que deveria no segundo quique, como se pulasse de propósito. Uma bola cansada pode perder altura rápido e rolar devagar até parar. Uma bola assustada pode quicar para trás ao ver um obstáculo. Com só timing, espaçamento e deformação, a bola ganha personalidade, e esse é o primeiro passo para animar personagens.
Esse exercício mostra por que a bola é tão usada no ensino: tudo o que vale para ela vale para um corpo. O quadril de um personagem que pula segue o mesmo arco; a cabeça que balança segue o mesmo espaçamento; a barriga que sacode no pouso segue a mesma deformação.
#Erros comuns
- Quiques todos da mesma altura: a bola parece não perder energia, como num desenho mecânico.
- Espaçamento uniforme: a bola flutua, sem peso.
- Achatamento longo demais: a bola parece de massa de modelar.
- Volume que muda: a bola cresce e encolhe entre quadros.
- Parada brusca: a bola para de quicar de repente, em vez de diminuir aos poucos.
#No Zyggs
No Zyggs, comece pelo guia Sua primeira animação, que monta a linha do tempo e explica como repetir quadros. O papel de cebola, descrito em Enxergar os quadros vizinhos, mostra os quadros anteriores e seguintes em transparência, ideal para conferir o espaçamento. Se preferir traçar o caminho e deixar a bola percorrê-lo, o recurso de animar por uma trajetória faz o rascunho do movimento.
#Para estudar mais
O verbete da Wikipédia sobre a bola traz curiosidades sobre materiais e esportes que ajudam a escolher a bola do exercício. E depois de dominar o quique, o próximo passo natural é o ciclo de caminhada, que aplica as mesmas ideias de peso e arco ao corpo inteiro.
Perguntas frequentes
Porque ela reúne timing, espaçamento, arcos, peso e deformação num objeto simples, sem exigir anatomia. Quem domina a bola entende a base do movimento.
Para uma bola de borracha caindo de uns dois metros, o primeiro quique leva cerca de 20 a 24 quadros a 24 quadros por segundo. Cada quique seguinte fica mais baixo e mais curto.
Ela pode esticar um pouco nos quadros mais rápidos, perto do chão, e achatar no contato. No ponto mais alto, onde quase não tem velocidade, ela fica redonda.


