Aceleração e desaceleração na animação

Por que quase todo movimento começa devagar e termina devagar, e como espaçar os desenhos para mostrar isso com poucos quadros.

Desenho técnico do mecanismo do relógio do Big Ben, de cerca de 1854

A aceleração e desaceleração é o princípio que dá peso ao movimento. Quase nada no mundo real sai do repouso já em velocidade máxima, e quase nada para de uma vez. Um carro arranca devagar, ganha velocidade e freia antes de parar. Um braço que se levanta começa lento, acelera no meio e desacelera ao chegar no alto. Na animação, esse comportamento aparece no espaçamento dos desenhos, e entender isso muda a qualidade de qualquer cena.

#Espaçamento: onde o princípio aparece

Imagine uma bola indo da esquerda para a direita em 12 quadros. Se os 12 desenhos ficam à mesma distância uns dos outros, a bola anda em velocidade constante, como numa esteira. Se os desenhos ficam juntos no começo, afastados no meio e juntos de novo no fim, a bola sai devagar, corre no meio e chega devagar.

O olho lê distância entre desenhos como velocidade. Desenhos próximos: movimento lento. Desenhos distantes: movimento rápido. A aceleração e desaceleração é só isso: aproximar os desenhos perto das poses extremas e afastá-los no meio do caminho.

Gravura de um mecanismo de relógio de mesa com engrenagens e pêndulo
Imagem: Bracket clock movement, Unknown author Unknown author (domínio público, via Wikimedia Commons)

#Os termos em inglês

Em muitos livros, o princípio aparece como "slow in and slow out":

  • Slow out: sair devagar de uma pose, ou seja, acelerar.
  • Slow in: chegar devagar a uma pose, ou seja, desacelerar.

Animadores também falam em "ease in" e "ease out". Os nomes variam, a ideia é a mesma.

#O gráfico de espaçamento

Antes de desenhar os intermediários, muitos animadores fazem um gráfico de espaçamento, também chamado de carta de tempo. É uma linha entre dois quadros-chave com marcas indicando onde cada intermediário vai cair.

Um exemplo para uma ação de 9 quadros, do quadro-chave A ao B:

  • A primeira marca fica a um oitavo do caminho.
  • A segunda, a um quarto.
  • A terceira, na metade.
  • A quarta, a três quartos.
  • A quinta, a sete oitavos.

Essa divisão em metades sucessivas, partindo das duas pontas, é a forma mais comum de criar aceleração e desaceleração. Desenhar primeiro o intermediário do meio e depois os das metades também ajuda a manter o volume.

#Quando quebrar a regra

O princípio não vale para tudo, e saber quando ignorá-lo também faz parte:

  • Objetos mecânicos podem andar em velocidade constante: um ventilador, uma esteira, um robô de propósito rígido.
  • Quedas e impactos: uma bola caindo acelera até bater no chão e não desacelera antes do contato. A desaceleração some no impacto.
  • Golpes rápidos: um soco pode sair com aceleração forte e parar seco, sem desacelerar, para parecer mais violento.
  • Efeitos de humor: um personagem que dispara de zero à velocidade máxima num só quadro é uma piada clássica.

#Aceleração e desaceleração em personagens

No corpo, o princípio se combina com arcos e com sobreposição. Um braço que se levanta desacelera ao chegar no alto, mas a mão pode desacelerar um pouco depois do cotovelo. Uma cabeça que vira acelera no meio da virada e desacelera ao chegar. Quando todas as partes desaceleram ao mesmo tempo, o resultado é mecânico; defasar as desacelerações deixa o movimento mais natural.

O peso também muda a curva. Objetos pesados demoram mais para acelerar e mais para parar, então pedem mais quadros perto das poses extremas. Objetos leves aceleram e param rápido, e o espaçamento fica mais uniforme.

#Aceleração e desaceleração na câmera e nos objetos

O princípio vale além dos personagens. Movimentos de câmera que começam e terminam de repente sacodem o público; quando a câmera acelera ao sair e desacelera ao chegar, o deslocamento parece feito por uma pessoa segurando o equipamento. Um zoom que para seco também incomoda; um zoom que desacelera nos últimos quadros parece natural.

Objetos de cena seguem a mesma lógica. Uma porta que se abre desacelera ao chegar no batente. Uma gaveta puxada acelera no começo e freia no fim. Um balão que sobe ganha velocidade aos poucos. Quanto mais você observar objetos reais, mais vai notar essa curva, e mais fácil fica reproduzi-la.

#Como medir a curva certa

Uma forma prática de escolher o espaçamento é filmar a ação real com o celular e contar os quadros. Levante o braço em frente à câmera, abra o vídeo quadro a quadro e marque a posição da mão em cada um. Você vai ver as marcas próximas no começo e no fim e afastadas no meio. Copie essa distribuição para o gráfico de espaçamento e ajuste a gosto.

Para movimentos que não dá para filmar, compare com algo parecido: um personagem gigante pode seguir a curva de um caminhão manobrando; um inseto, a de uma bola de papel jogada para cima.

#Erros comuns

Desaceleração em tudo, na mesma medida. Se cada movimento acelera e desacelera igual, a cena vira uma sequência de poses suaves demais, sem impacto. Varie.

Poses extremas sem tempo. A desaceleração serve para que a pose final seja vista. Se ela dura só um quadro, a desaceleração perde a função.

Espaçamento irregular sem querer. Um intermediário fora do lugar faz o movimento tropeçar. Confira com o papel de cebola ligado se as distâncias crescem e diminuem com regularidade.

#Exercícios

  • Pêndulo: o exemplo perfeito. Ele desacelera nas pontas e corre no meio.
  • Mão que acena: acelera ao sair de cada extremo e desacelera ao chegar no outro.
  • Carro que arranca e freia: compare a versão com espaçamento uniforme e a versão com aceleração.

#No Zyggs

Na linha do tempo do Zyggs, o papel de cebola mostra os quadros vizinhos em transparência, e é a forma mais rápida de ver o espaçamento; o guia Enxergar os quadros vizinhos explica os ajustes. Para formas e objetos, o recurso de animar por uma trajetória desenha o caminho e distribui os quadros ao longo dele, útil para testar curvas de aceleração antes de animar à mão.

#Para estudar mais

O verbete da Wikipédia sobre aceleração traz a física do conceito, e o artigo sobre timing na animação mostra como o número de quadros e o espaçamento trabalham juntos para dar peso a cada ação.

Perguntas frequentes

O que significa slow in e slow out?

São os nomes em inglês para desaceleração ao chegar e aceleração ao sair de uma pose. Na prática, significam mais desenhos perto das poses extremas e menos no meio do caminho.

Todo movimento deve acelerar e desacelerar?

Quase todo, mas não todos. Um objeto mecânico em velocidade constante, uma queda livre perto do chão ou um impacto podem pular a desaceleração de propósito.

Como desenhar o gráfico de espaçamento?

Trace uma linha entre duas poses e marque nela onde cada intermediário vai ficar. Marcas juntas perto das pontas indicam desaceleração; marcas afastadas no meio indicam velocidade.

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