Comprimir e esticar: o princípio do peso
Como a deformação de uma bola, de um rosto ou de um corpo inteiro comunica peso, velocidade e material, e como medir a quantidade certa em cada caso.

Comprimir e esticar é o primeiro dos doze princípios clássicos e o mais fácil de ver na tela: uma bola que achata ao bater no chão e estica ao cair, um rosto que se amassa num susto e se alonga numa surpresa. A deformação diz ao público do que o objeto é feito e com que força ele se move. Uma bola de boliche quase não se deforma; uma bola de borracha se deforma muito. Este artigo explica como dosar o efeito e como manter o volume, que é onde a maior parte das animações tropeça.
#O que o princípio comunica
A deformação responde a três perguntas que o público faz sem perceber:
- Do que é feito? Material mole deforma mais. Material duro quase nada.
- Quão rápido vai? Objetos em alta velocidade parecem esticados na direção do movimento.
- Com que força bateu? Quanto maior o impacto, mais o objeto achata no contato.
Quando a resposta visual combina com a ideia, o movimento convence. Uma bigorna que achata como gelatina é engraçada porque contradiz o material, e isso pode ser uma escolha de estilo.

#A regra do volume constante
O erro mais comum ao comprimir e esticar é mudar o tamanho do objeto. Se a bola achata na vertical, ela precisa alargar na horizontal. Se estica, fica mais estreita. O volume total continua o mesmo, como um balão de água apertado entre as mãos.
Um teste prático: desenhe a bola em repouso, a bola achatada e a bola esticada lado a lado. As três devem parecer feitas da mesma quantidade de massa. Se a achatada parece maior, você aumentou o volume sem querer, e o objeto vai parecer inchar no contato.
#Quanto deformar em cada momento
Pense na bola quicando em quatro momentos:
- No alto: velocidade quase zero, forma redonda.
- Na queda: ganha velocidade e estica um pouco na direção do chão.
- No contato: achata, com o máximo de deformação num só quadro.
- Na subida: estica de novo, menos do que na queda, porque perdeu energia.
Para uma bola de borracha cartunesca, o achatamento pode chegar a uns 30% da altura. Para uma bola de tênis, uns 10%. Para uma bola de boliche, quase nada. Teste valores diferentes e veja qual deles o olho aceita como aquele material.
#Comprimir e esticar em personagens
O princípio não fica só nas bolas. No corpo, ele aparece:
- No rosto: a boca aberta num grito alonga a cabeça; o susto contraído achata.
- No tronco: o corpo se encolhe antes de um pulo e se estica no ar.
- Nos membros: um braço que dá um soco pode alongar no quadro de maior velocidade.
Em personagens, a deformação precisa respeitar a estrutura. Esticar uma perna de forma que os ossos pareçam quebrar dá uma sensação estranha, a não ser que esse seja o efeito procurado. A dica é deformar a massa (bochechas, barriga, músculos) e preservar o desenho dos ossos e das articulações.
#Comprimir e esticar em objetos rígidos
Uma cadeira, um carro ou uma letra de logotipo não se deformam na vida real, mas a animação pode emprestar o princípio a eles. O truque é deformar pouco e por pouco tempo. Um carro que freia pode inclinar a carroceria para a frente e achatar um ou dois quadros, voltando logo à forma original. Uma letra que cai na tela pode esticar na queda e achatar no pouso, como se fosse feita de borracha, e isso dá personalidade a uma marca sem que ninguém ache estranho.
Em objetos rígidos, o público aceita a deformação quando ela dura no máximo dois ou três quadros. Mais do que isso, o objeto parece mudar de material. Vale testar com a cena tocando em velocidade real, porque um quadro deformado que parece exagerado parado costuma passar despercebido em movimento.
#Um teste de leitura
Mostre a cena para alguém que não sabe do que se trata e pergunte do que o objeto é feito. Se a pessoa disser "borracha" quando você animou uma bola de tênis, a deformação passou do ponto. Se disser "pedra" quando era uma bexiga, faltou deformar. Esse teste rápido acerta mais do que medir porcentagens, porque mede o que importa: a impressão de quem assiste.
#Exercícios para treinar
- Bola de borracha e bola de boliche: anime as duas caindo da mesma altura e compare.
- Saco de farinha: um saco cheio cai, achata, se recupera um pouco e fica parado. Ele mostra deformação sem esqueleto.
- Cabeça falando: anime uma cabeça abrindo a boca para dizer "ah" e fechando para dizer "m", com o queixo esticando o rosto.
Faça cada exercício primeiro sem deformação e depois com ela. A diferença ensina mais do que qualquer explicação.
#No Zyggs
Na linha do tempo, ligue o papel de cebola para ver o desenho anterior e o seguinte enquanto deforma o atual; o guia Enxergar os quadros vizinhos mostra os ajustes. Para formas vetoriais, a ferramenta de nós permite achatar e esticar sem redesenhar, e o guia Editar nós sem perder o controle explica como mover pontos sem estragar a curva. Para um desenho já pronto, a deformação por malha entorta a imagem inteira com alças, útil para testar o quanto um rosto aguenta antes de parecer outro personagem.
#Onde comprimir e esticar atrapalha
Deformação em excesso cansa. Se todo movimento estica e achata, nada mais parece ter peso, porque o público perde a referência do que é normal. Guarde o efeito para os momentos que pedem: impactos, mudanças bruscas de direção, expressões fortes. O verbete da Wikipédia sobre comprimir e esticar (em inglês) traz exemplos históricos de como os estúdios dosaram o princípio, e o artigo sobre a bola quicando leva o exercício do começo ao fim.
Perguntas frequentes
Não. Em animação realista a deformação é pequena, às vezes invisível quadro a quadro, mas está lá: a bochecha que desce numa queda, o músculo que estica num salto.
Se o objeto achata na vertical, ele precisa alargar na horizontal na mesma proporção. Uma forma de conferir é comparar a área do desenho esticado com a do desenho em repouso.
Ela estica nos quadros rápidos perto do chão e achata no quadro de contato. No ponto mais alto, onde a velocidade é quase zero, ela volta à forma redonda.


