Animar em dois, em um ou em três

O que significa animar em um, em dois e em três, quantos desenhos cada opção pede e como misturar as três para ganhar tempo sem perder fluidez.

Tira de lembrança do cinetoscópio de Edison com quadros sucessivos de um dançarino

Animar em dois é uma das decisões mais práticas da animação quadro a quadro. Num projeto a 24 quadros por segundo, você pode desenhar uma imagem nova a cada quadro, o que se chama animar em um, ou repetir cada desenho por dois quadros, o que se chama animar em dois. Há ainda a opção de animar em três, com cada desenho por três quadros. A escolha muda o número de desenhos, o tempo de produção e o aspecto final do movimento. Este artigo explica as três opções e quando usar cada uma.

#As três cadências

A taxa do projeto continua a mesma; o que muda é quantas vezes cada desenho aparece:

  • Em um: 24 desenhos por segundo. Movimento muito liso, o dobro de trabalho.
  • Em dois: 12 desenhos por segundo. O padrão de boa parte da animação clássica e da televisão.
  • Em três: 8 desenhos por segundo. Movimento mais marcado, comum em produções com orçamento apertado e em alguns estilos de anime.

Para o público, a diferença entre um e dois costuma ser pequena em ações comuns. Entre dois e três, fica mais visível: o movimento ganha um ritmo mais entrecortado.

Detalhe de um pedaço de filme Super 8 visto contra a luz
Imagem: Super 8mm film piece frames detail 2, Clipoemsart (CC0, via Wikimedia Commons)

#Por que animar em dois funciona

O olho humano aceita bem 12 imagens por segundo como movimento contínuo, desde que o espaçamento entre os desenhos seja bom. Animando em dois, você corta o trabalho pela metade e ainda ganha uma qualidade própria: cada desenho fica um pouco mais na tela, e o traço aparece mais. Muita gente associa esse ritmo ao desenho animado clássico, e ele faz parte do charme do estilo.

Há também uma vantagem técnica. Com menos desenhos, cada um recebe mais atenção, e o volume e a linha ficam mais consistentes. Uma animação em um com desenhos tremidos parece pior do que uma em dois com desenhos firmes.

#Quando animar em um

Animar em um faz diferença em casos específicos:

  • Movimentos muito rápidos: um soco, um chicote, uma corrida veloz. Em dois, o objeto pode parecer pular.
  • Câmera em movimento: se o cenário passa por trás do personagem, um personagem em dois sobre um fundo em um pode parecer tremer. Muitos animadores animam o personagem em um nesses trechos.
  • Objetos que giram: rodas, hélices e piões ficam estranhos em dois.
  • Movimentos lentos e longos: um objeto que desliza devagar pode mostrar pequenos saltos em dois.

#Quando animar em três

Animar em três funciona em estilos que aceitam um ritmo mais marcado, em pausas com pequenos movimentos, em personagens de fundo e em produções com prazo curto. Também pode ser uma escolha estética: certas animações japonesas usam em três em boa parte das cenas, guardando em dois ou em um para ações importantes.

#Misturando as cadências

Na prática, quase toda animação mistura. Um personagem pode falar em dois, levantar-se em dois, dar um salto em um e voltar para dois na aterrissagem. A troca de cadência é um recurso de produção, mas precisa de cuidado:

  • Evite trocar no meio de um movimento contínuo. Se um braço está subindo, mantenha a mesma cadência até ele parar.
  • Troque em poses de pausa ou em mudanças claras de ação.
  • Mantenha a coerência entre personagens que interagem. Se dois personagens se tocam, os dois precisam estar na mesma cadência naquele trecho.

#Animar em dois e o timing

Animar em dois não muda o timing em segundos, mas muda a resolução dele. Uma ação de 12 quadros em dois tem 6 desenhos. Se você precisa de um tempo ímpar, como uma ação de 9 quadros, um dos desenhos fica por um quadro só, ou por três. Isso é normal; o importante é que o espaçamento continue regular.

O artigo sobre timing na animação traz referências de quadros para ações comuns, e todas podem ser adaptadas para cada cadência.

#Animar em dois em GIFs e pixel art

Em GIFs e pixel art, a escolha da cadência costuma ser ainda mais livre. Muitos sprites de jogos têm ciclos de 4 a 8 desenhos que se repetem em velocidades baixas, e funcionam bem justo por isso. Nesses casos, pensar em "dois" ou "três" é menos útil do que pensar na duração de cada desenho em milissegundos. O artigo sobre animação em pixel art explica esse raciocínio.

#Um exemplo: o mesmo pulo em um e em dois

Imagine um personagem que pula de um muro baixo. A ação toda dura 24 quadros: 8 de antecipação, 6 de voo, 4 de impacto e 6 de recuperação. Animada em dois, a cena tem 12 desenhos. A antecipação e a recuperação ficam ótimas assim, porque são movimentos de peso, mais lentos. O voo, porém, é rápido, e em dois o corpo pode parecer pular de um ponto a outro do ar.

A solução comum é animar o voo em um: os 6 quadros do voo ganham 6 desenhos, e o resto fica em dois. O total sobe de 12 para 15 desenhos, um aumento pequeno, e o trecho que mais precisava de fluidez fica liso. Essa mistura é a regra em produções profissionais: cada trecho recebe a cadência que pede.

#Erros comuns

  • Personagem em dois sobre fundo em um: o personagem parece tremer contra o cenário.
  • Troca de cadência no meio de um gesto: o gesto dá um pequeno tropeço.
  • Tudo em um por hábito: dobra o trabalho sem ganho visível.
  • Tudo em três em ações rápidas: o movimento perde clareza.

#No Zyggs

Na linha do tempo do Zyggs, cada quadro pode ser estendido para durar mais de uma posição, o que torna animar em dois ou em três uma questão de esticar cada desenho; o guia Sua primeira animação mostra como repetir e estender quadros. Para conferir o espaçamento com a cadência escolhida, o papel de cebola do guia Enxergar os quadros vizinhos mostra os desenhos vizinhos em transparência.

#Para estudar mais

O verbete da Wikipédia sobre taxa de quadros explica os padrões de cinema e televisão por trás de cada cadência. E o artigo sobre quadros por segundo ajuda a escolher a taxa do projeto antes de decidir em quantos você vai animar.

Perguntas frequentes

O que significa animar em dois?

Significa que cada desenho fica na tela por dois quadros. Num projeto a 24 quadros por segundo, isso dá 12 desenhos por segundo.

Animar em dois deixa a animação pior?

Não. Boa parte da animação clássica foi feita em dois. Para a maioria das ações, a diferença é pequena, e o aspecto desenhado até ganha charme. Movimentos muito rápidos e câmeras em movimento podem pedir animação em um.

Posso misturar em um e em dois na mesma cena?

Pode e é comum. Ações rápidas ficam em um, momentos mais calmos em dois. O cuidado é não trocar no meio de um movimento contínuo, o que causa um pequeno tropeço.

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