Animatic: o storyboard em movimento

Como transformar os quadros do storyboard num primeiro filme cronometrado, com cortes e movimentos simples, para acertar o ritmo antes de animar.

Rolo de filme de 16 milímetros com a película enrolada

O animatic é o storyboard em movimento. Os quadros desenhados ganham duração, entram em sequência, recebem cortes, movimentos de câmera simples e, quando há, uma trilha de referência com falas e música. O resultado é um primeiro filme da história, feio e parado, mas já com o ritmo da obra final. É no animatic que se descobre que uma cena está longa demais, que uma piada não tem tempo de respirar ou que falta um plano para o público entender a ação.

#Para que serve o animatic

O storyboard mostra o que acontece; o animatic mostra quando e por quanto tempo. Ele responde a perguntas que só aparecem com o tempo correndo:

  • O ritmo funciona? Uma sequência de planos curtos cria tensão; planos longos dão calma.
  • Cada plano dura o necessário? O público precisa de tempo para ler cada imagem.
  • A história se entende? Assistindo do começo ao fim, lacunas ficam óbvias.
  • A duração total está certa? Um curta que deveria ter dois minutos e tem quatro no animatic precisa de cortes antes de animar.

Corrigir esses problemas no animatic custa minutos. Corrigir depois da animação custa semanas.

Foto de 1911 do setor de expedição de filmes de um estúdio, com prateleiras de latas
Imagem: Film shipping and receiving department at 'Lubinville', 1911, Unidentified photographer for either Motography or employee of the Lubin Manufacturing Company, 1911 (domínio público, via Wikimedia Commons)

#Do storyboard ao animatic

O processo básico:

  1. Digitalize ou organize os quadros do storyboard na ordem da história.
  2. Defina a duração de cada quadro. Uma regra inicial é atuar a cena em voz alta e cronometrar.
  3. Monte a sequência numa linha do tempo, cada quadro ocupando a sua duração.
  4. Acrescente o som de referência, se houver: falas gravadas, mesmo que provisórias, e música temporária.
  5. Toque do começo ao fim e anote o que tropeça.
  6. Ajuste durações, ordem e quadros, e toque de novo.

O animatic costuma passar por várias versões. Cada uma corrige o ritmo da anterior.

#Quanto tempo dar a cada quadro

Algumas referências para começar:

  • Plano de situação (o lugar, o cenário): 2 a 4 segundos, o suficiente para o público se localizar.
  • Plano de ação simples: o tempo que a ação levaria na vida real.
  • Close de reação: 1 a 2 segundos, às vezes menos em cenas rápidas.
  • Plano com fala: a duração da fala mais um pequeno respiro antes e depois.
  • Pausa dramática: o tempo que você aguentaria em silêncio olhando aquela imagem.

Esses números mudam com o estilo. Uma comédia rápida corta mais cedo; um drama segura mais.

#Movimento no animatic

Um animatic pode ir além de quadros parados. Recursos simples que ajudam muito:

  • Movimentos de câmera: um zoom lento, uma panorâmica sobre o cenário, feitos movendo o quadro inteiro.
  • Poses extras: dois ou três desenhos por plano mostram o começo, o meio e o fim de uma ação.
  • Personagens recortados: desenhar o personagem numa camada separada do cenário permite deslizá-lo pela tela.
  • Transições: cortes secos na maior parte, fusões só onde a história pedir uma passagem de tempo.

O objetivo continua sendo o ritmo. Não gaste horas animando dentro do animatic: o detalhe vem depois.

#O som no animatic

Em cenas com diálogo, a fala decide o tempo dos planos. Por isso muitos estúdios gravam vozes provisórias, às vezes com a própria equipe, antes do animatic. A música temporária, mesmo que não seja a final, mostra o clima e ajuda a sentir o ritmo dos cortes.

Se o seu programa de animação não trabalha com áudio, monte o animatic exportando a sequência em vídeo e juntando o som num editor de vídeo comum. O importante é ver imagem e som juntos antes de animar.

#Revisando o animatic

Ao assistir, preste atenção ao que o corpo sente. Momentos em que você se pega impaciente pedem cortes. Momentos em que você não entendeu o que aconteceu pedem mais tempo ou um plano a mais. Assistir com outra pessoa, que não conhece a história, revela os buracos mais rápido: pergunte o que ela entendeu e onde se perdeu.

Uma prática útil é anotar o tempo de cada problema durante a primeira passada e só corrigir no fim. Parar a cada tropeço impede de sentir o ritmo do conjunto.

#Um exemplo de ajuste

Imagine um animatic de 40 segundos com uma cena de perseguição. Na primeira versão, todos os planos têm cerca de 3 segundos. Ao assistir, a perseguição parece lenta, quase uma caminhada. Na segunda versão, os planos de corrida caem para 1 segundo cada, e um plano de 4 segundos, mostrando o perseguidor chegando perto, ganha destaque no meio. A cena fica com 32 segundos e a tensão aparece.

Esse tipo de ajuste é rápido no animatic: mudar números na linha do tempo e tocar de novo. Na animação pronta, a mesma mudança exigiria redesenhar planos inteiros, porque o tempo de cada ação já estaria fixado nos desenhos.

#O animatic como contrato

Em projetos com mais de uma pessoa, o animatic aprovado vira a referência de todos. O animador sabe quanto tempo tem cada plano, quem faz o cenário sabe o que aparece em cada enquadramento, quem faz o som sabe onde entram os efeitos. Mudanças depois disso precisam de um bom motivo, porque mexem no trabalho de todos.

#Erros comuns

  • Durações iguais para todos os quadros: o animatic fica monótono e não mostra o ritmo real.
  • Animar demais: o animatic vira uma animação, e o trabalho de ajuste fica caro.
  • Pular o som: em cenas faladas, o tempo da fala muda tudo.
  • Aprovar a primeira versão: quase sempre há cortes a fazer.
  • Não respeitar o animatic aprovado: se a animação muda o ritmo sem motivo, o trabalho de planejamento se perde.

#No Zyggs

No Zyggs, o animatic pode nascer na própria linha do tempo: cada quadro do storyboard vira um quadro longo, estendido pela duração do plano, e a sequência toca em laço; o guia Sua primeira animação mostra como estender quadros. Para mover um quadro inteiro e simular um movimento de câmera, use camadas separadas para cenário e personagens, como explica o guia Arte, rascunhos e guias. O Zyggs não toca áudio, então junte o som exportando o animatic em vídeo, como descreve o guia Salvar, compartilhar e exportar, e montando num editor de vídeo.

#Para estudar mais

O verbete da Wikipédia sobre animatic explica a origem do termo e o uso em cinema e publicidade. Se ainda não montou o storyboard, o artigo como fazer um storyboard que funciona traz o método do roteiro aos quadros.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre storyboard e animatic?

O storyboard é uma sequência de quadros parados. O animatic monta esses quadros no tempo, com a duração de cada plano, cortes e às vezes movimentos de câmera simples e som de referência. É o primeiro filme da história.

Precisa ter som no animatic?

Ajuda muito, sobretudo em cenas com diálogo ou música, porque o tempo da fala define o tempo dos planos. Mas um animatic sem som já serve para acertar o ritmo visual.

Quanto tempo leva para fazer um animatic?

Bem menos do que a animação. Com o storyboard pronto, um animatic de um minuto pode ser montado em algumas horas, e as correções custam minutos em vez de dias.

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